domingo, 2 de agosto de 2015

Entre cantos, contos e curvas do rio

Há 30 anos atrás em viagem para Machu Pichu, olhei pro céu e vi o mais lindo, o céu pantaneiro. Meus olhos cheios de maravilhas buscaram o mesmo e encontraram. Salve! Salve!


Descemos a vertente da Chapada dos Guimarães cheios de amigos e maravilhas no coração pra encontrar o Pantanal. Fomos pra Pousada Rio Claro, no meio da Transpantaneira, estrada cortando as águas que leva ao coração do complexo. E a viagem foi longa, longuíssima! A cada minuto parávamos pra fotografar a imensidão de pássaros e outros tantos bichos que víamos. Pra onde se olhar, uma surpresa, pra onde se ouvir, uma maravilha. Estrada bordada, rendada e salpicada de vida.




Maguari


Cambará


Achei que não chegaríamos nunca, mas chegamos.


A Pousada é um aconchego e simpatia. Fomos recebidas muito bem e com cordialidade.
Fizemos vários passeios de barco, andamos a cavalo, pescamos piranhas no rio, demos comida pro jacaré, vimos muitos por de sois e uma alvorada. Fizemos safári fotográfico e fomos abençoadas com todas as sortes que se pode ter no pantanal.

Senhor Gonçalo típico, nascido e criado nas veias pantaneiras, jeito de falar cantado e arrastado que conhece todos os segredos, e línguas dos bichos, foi nosso guia todos os dias.
Eis o famoso Zico.



_” Aqui a gente tem uma lei: quem começa com um grupo vai todos os dias com ele.”
“_ Seu Gonçalo, mais aqui tem tanta piranha que se a gente quiser pega até na mão!"
" _Pois num é?!”
Aves, macacos, capivaras que conviviam conosco lado a lado. Imagine de você a um passo de um gavião?! Muito Pantanal isso.

E tem muito, mas muito alemão. Estes gostam mesmo do Pantanal.
Esta arara ficou aqui depois da novela Pantanal e das tantas sortes que tivemos uma foi esta, dela aparecer na pousada para uma sessão de fotos. Para delírio dos alemães. Ah, e tinha um tucano, daquele que tem o bico grande que apareceu. Vi mas nem deu pra fotografar, foi pras matas.
Estávamos pegando o almoço, alias que comida gostosa, e vimos um holandês fotografando um bando de urubus no pátio dos cavalos.
“_ Val, olha o gringo fotografando urubu. Que máquina poderosa! Coitado, nesse calor, ele tá todo vermelho.
_ Ai, meu Deus ele sentou no chão?! Vai se encher de carrapatos.
_ Essa não, agora tá deitado de peito no chão!!
_ Seu Gonçalo, ele não vai pegar carrapato não?
_ Que nada, a gente pega, mas eles não. Acho que eles têm sangue ruim.”

Moda de viola cantada pelos funcionários da pousada numa noite especial. Bem Pantanal.



Dia de onça

Pensei que ver uma onça era a mesma coisa que ver no zoológico. Mas nem de longe é a mesma coisa.

O rádio do Sr. Gonçalo tocou ...

_”Tem uma onça!”

Barco acelera no motor, vento no rosto, mão segurando nas bordas no barco, coração acelerado. Será?!

O primeiro barco a avistar está parado. Silêncio... Olhos fixos na mata. Eu na frente me chego arrastando para a proa do barco. Quero ficar bem na frente. Só pássaros e barulho tímido dos remos na água. Motor desligado. Máquinas fotográficas em alerta. É o prêmio dos prêmios.
Eu, bem na pontinha e o Sr Gonçalo quase encostou a ponta da proa na margem. Um rugido! A onça, olho no olho, eu e a onça! Nada de máquina, nada de foto, um reconhecer e um olhar e ela se virou e entrou na mata. Respiração de volta. Esperamos o retorno. Era um casal de onças, mas só vimos o macho. Espera... Val aproveitou pra fazer as homenagens de flores pelo aniversário de nascimento do pai falecido no fim do ano passado.

O outro barco desistiu da espera e voltou ao seu passeio. Nós ficamos. Senhor Gonçalo disse que ela estava lá, ainda, e seguimos seu andar anunciado pela passarada que em desespero alertava toda a mata, que aí passava a majestade Onça pintada do Pantanal!


Vimos um Martim Pescador que se distraía conosco e quando se deu conta do perigo deu um grito e saiu voando todo desengonçado. Não seu pra controlar, caímos na gargalhada.

Seguimos o andar rebolado da onça por quase 2 quilômetros. Nós olhando ela e ela nos olhando.
Então ela seguiu pra dentro do cerrado e nós pra pousada ... sonhar com onça! Uau!
Em 6 dias, apenas neste, ela foi vista. O pessoal da pousada disputou barco pra vê-la. Gratas somos por estes momentos.
Realmente, no zoológico ela não tem a vontade de onça, o olho de onça, a liberdade de onça, a corte da bicharada gritando quando ela passa, e a gente não tem a sorte.


Vou contar a história do Geoffrey, um alemão que conhecemos:
Menino de 8 anos foi com o pai comprar um livro na Alemanha. Escolheu o livro, ou o livro que o escolheu. As aventuras de Sasha Siemel, o caçador de onças; que caçava onças com uma zagaia. Este foi o herói deste menino, que aprendeu tudo sobre onças e se apaixonou por elas, pelo Pantanal e pelo Brasil. Casou-se com uma brasileira, fala português e estava lá conosco, em busca da maior de todas as sortes – a onça pintada. Coração acelerado de estar onde a onça estava, de ouvir os relatos nossos. Que pena que o Geoffrey não viu!
_”Que pena senhor Jofre , não viu a onça!”
_” Eu estou feliz de saber que a onça está viva aqui e que enquanto eu chegava, ela passou e está repovoando. Isto me deixa muito feliz! - Geoffrey”
Um vídeo premiado sobro o Sasha Siemel:


Geoffrey


Uma sucuri pertinho da pousada, pertinho da gente sem medo, nem de gente nem dela.


E enquanto os bichos dormem com o calor, nós nos refrescamos na piscina e lemos um pouco na rede.
“ Ê vidão bão!”
Aqui estamos nós ouvindo as histórias como a do Senhor Zeca (quem filmou a sucuri tão bem filmada), que saiu de São Paulo com sua esposa pra trabalhar de tudo um pouco e costurar as raízes matogrossenses com amigos em profusão e generosidade do tamanho do Brasil.
Enquanto as crianças fazem o que é melhor: brincar.

Sabe o que é isso? Cocô de capivara.
Vencendo os medos.
Este estava morto na estrada.


Fui tirando as fotos e nem vi o jacaré. Se a Val não me avisa...


Valdo, o motorista curtindo o por do sol com a gente.

Um céu, uma alvorada e um por do sol dourado!


Uma família e uma casinha branca pantaneira estão lá, no coração deste Brasil, onde pulsam os rios, onde a vida é densa de vida.
Agradecemos a Marielma e a seu marido pela acolhida.
Voltar não é só um desejo, é uma necessidade.
Obrigada Deus por marcar nossos olhos com maravilhas!

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